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A PANDEMIA E A CRISE NO CUIDADO: O QUE ELES CHAMAM DE AMOR, NÓS CHAMAMOS DE TRABALHO NÃO PAGO

Actualizado: may 17

Clara Saliba, em nome do Coletivo Arroz, Feijão e Economia

Fonte: Pixabay


Os efeitos da pandemia e do consequente isolamento social reforçaram, em muito, a precariedade e as violências que permeiam a vida “privada” e “produtiva” das mulheres. Jornadas de trabalho aumentadas pela exploração implicada pelo modelo de teletrabalho, isso para aquelas que puderam se resguardar, a responsabilidade absoluta pela educação e criação dos filhos, a convivência prolongada com os companheiros, o esgotamento mental pela situação, são elementos que compõem o quadro de violência das mulheres na pandemia. Como muito bem colocado pela diretora executiva da ONU Mulheres e vice-secretária geral das Nações Unidas, Phumzile Mlambo-Ngcuka [1] a “Violência contra as mulheres e meninas é uma pandemia invisível”, além de reforçar a urgência da violência contra a mulher ser foco nas políticas políticas, sociais e econômicas a serem implantadas. Nas palavras de Anastasia Divinskaya, representante da ONU Mulheres no Brasil [2], “a pandemia novamente chama atenção para a necessidade e o valor da economia do cuidado”.


Segundo estudo - O impacto do COVID-19 nas mulheres - publicado pela ONU [3], as mulheres estão, nessa quarentena, mais sobrecarregadas do que nunca. Não só pelo notório desgaste psicológico que nos relegam os meses de isolamento social, mas também por carregarem - geralmente sozinhas - todo o trabalho doméstico dos lares. Com crianças fora da escola, idosos doentes e afazeres domésticos aumentando exponencialmente, vemos as responsabilidades sendo direcionadas de maneira mais intensa para as mulheres.


As tarefas da casa, o auxílio aos idosos e o cuidado com os filhos são, historicamente, atividades desempenhadas pelas mulheres. Com a conquista de direitos, entre eles o de trabalhar fora, isso pouco mudou, como mostram os dados da OCDE para países europeus em que mulheres empregadas são 50% mais suscetíveis do que homens empregados a exercerem cuidados regulares com doentes, incapazes ou parentes idosos.


Tais atividades, indispensáveis para a vida humana e notoriamente invisibilizadas em uma sociedade orientada para entender como trabalho apenas o que é produtivo, compõem o que a teoria feminista chama de economia do cuidado (careeconomy). Na contemporaneidade, uma série de instituições, serviços e produtos domésticos foram criados, permitindo às mulheres, maior liberdade e domínio de seu tempo. A educação básica universal, as creches, a popularização dos eletrodomésticos, dos contraceptivos e do fast food são apenas algumas das inovações relativamente recentes que se relacionam de uma forma ou outra com a gestão do tempo das trabalhadoras e, portanto, com a economia do cuidado. É claro que luta das mulheres pela conquista de seus direitos foi o movimento central que lhes garantiu a entrada no mercado de trabalho, mas tal movimentação não teria sido possível sem a existência de uma estrutura de amparo na realização das atividades domésticas, sobre as quais as mulheres continuaram responsáveis em grande medida.[4]


Com a pandemia, muitos dos mecanismos facilitadores dessa dinâmica tiveram seu funcionamento impedido, o que concentrou ainda mais nas mulheres boa parte do trabalho doméstico. Mas, agora, como a força de trabalho feminina está muito mais inserida (ainda que em posição de desvantagem) no mercado de trabalho, desencadeou-se uma verdadeira crise no universo do cuidado, com impactos significativos na produtividade e, sobretudo, na saúde mental das mulheres.


O PESO DO TRABALHO NÃO PAGO.

A filósofa Silvia Federici acredita que, como bem evidenciado pela pandemia, sem o trabalho doméstico o mundo não se move. Para ela, o capitalismo é um sistema que depende desde seus primórdios de mecanismos de exploração da mão de obra feminina para funcionar adequadamente. Explica-se: para que os trabalhadores estivessem em condições físicas e psicológicas compatíveis com jornadas extensas de assalariamento, haviam de ser alimentados, habitar em casas minimamente estruturadas e ter o que vestir. Com as fábricas tomando boa parte do tempo dos homens, a responsabilidade pelo cuidado e, nesse sentido, pela reprodução da vida humana ficava com as mulheres, que não recebiam por sua realização. Isso sem contar com a criação das crianças, em última instância a mão de obra do futuro.


Na contemporaneidade, o cenário se altera significativamente pelo lado menos desejável: as ondas de inserção feminina no mercado de trabalho não vieram acompanhadas da melhor repartição do trabalho do cuidado, o que configura na existência feminina um status de dupla exploração, conhecida como dupla jornada. Isto é, além de serem as primordiais responsáveis pela manutenção da casa e do cuidado com as crianças, as mulheres também participam da jornada assalariada de trabalho, produzindo, então, em duas esferas, mas recebendo apenas por uma.


O cenário se agrava quando considerados recortes de raça e classe. A terceirização dos trabalhos de cuidado, via contratação de babás, cuidadoras ou empregadas domésticas, cria uma cadeia de exploração em que o alívio da sobrecarga sobre uma mulher não depende da divisão igualitária de tarefas dentro de casa, mas da contratação de outra mulher que tome suas responsabilidades e fique, por sua vez, sobrecarregada, conciliando as demandas do cuidado de sua própria família com a de sua patroa. Ainda, o não reconhecimento do cuidado como um tipo de trabalho as coloca em patamares salariais questionáveis e muitas vezes sob nenhuma proteção trabalhista. Estatisticamente, esse é um trabalho feito com mais frequência por mulheres não brancas - herança de um passado colonial em que a mão de obra feminina e racializada, sob condição de escravização, deveria cuidar das famílias brancas.


Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por exemplo, as mulheres brasileiras trabalharam cerca de 18,5 horas por mês dentro de casa, enquanto seus parceiros trabalharam só 10,3 horas, em 2018. Na América Latina, o trabalho de cuidado representa entre 15,2% (Equador) e 23,5% (Costa Rica) do PIB [5], e estimativas da ONU Mulheres acreditam que esse percentual pode variar entre 10 e 39% do PIB dos países [6], o que o coloca em proporções comparáveis aos setores de indústria e agricultura em termos de relevância econômica.


Mas, mesmo sendo fundamental para a sobrevivência humana e até para o funcionamento da economia, o trabalho de cuidado segue visto como um favor, um gesto amoroso, de carinho e dedicação estereotipicamente femininos. Não contabilizado no PIB, e nem percebido nas relações econômicas cotidianas, apenas em momentos de crise se levantam as questões relacionadas à reprodução da vida e ao trabalho de cuidado. Federici considera, por isso, que “o que eles chamam de amor, nós chamamos de trabalho não pago”[7].

QUEM CUIDA DE QUEM CUIDA?

Ademais, segundo relatório da OCDE [8], as mulheres compõem cerca de 70% de toda força de trabalho em serviços sociais e de saúde. Dentre os profissionais de enfermagem e parto, elas representam 85% do total [9]. A divisão sexual do trabalho, conforme se configura no capitalismo, relega a grande maioria das ocupações relacionadas ao cuidado às mulheres. Assim, além da responsabilidade de cuidar de suas famílias, muitas mulheres se dedicam ao cuidado profissionalmente. Enfermeiras, cuidadoras de idosos, professoras primárias, empregadas domésticas, babás, camareiras, faxineiras e muitas outras profissionais exercem, em ambos os momentos de sua jornada dupla, funções de cuidado e reprodução social.


Essa constatação suscita questionamentos acerca da saúde mental das mulheres, especialmente em momentos de crise da saúde e do cuidado em escala global. Mesmo em lares nos quais a responsabilidade pelas tarefas domésticas é compartilhada, seu planejamento costuma se manter sob a responsabilidade feminina e, em tempos de jornada dupla, tripla ou quádrupla, o impacto de mais esse trabalho, conhecido pela teoria feminista como carga mental, é imenso.


Para além de entender os desdobramentos econômicos da crise do trabalho de cuidado, que vão desde a queda de produtividade feminina até um mal-estar psicológico generalizado, é necessário que se construam alternativas, durante e após a pandemia, para a redução da carga mental que o cuidado confere às mulheres. Resta saber se, em meio à volta gradual e mais lenta do que o desejado à normalidade, o cuidado será novamente esquecido, fechado na caixa misteriosa de “coisas de mulher”.


Ações individuais, como a tomada de consciência pela sociedade, acerca da sobrecarga feminina, ainda que sejam ações louváveis a se tomar no âmbito da organização familiar, não são suficientes para solucionar os problemas do trabalho de cuidado na sociedade capitalista. A socialização do trabalho de cuidado passa, necessariamente, pela criação de políticas públicas que orientem uma nova organização da reprodução social. A criação de creches e também de casas de repouso universais e gratuitas, por exemplo, viabiliza a redução dos encargos - sabe-se, majoritariamente femininos - do cuidado de crianças pequenas e idosos, sem que sua terceirização se coloque como uma alternativa financeiramente inviável a famílias de baixa renda. Ainda, a garantia de direitos trabalhistas mínimos e a defesa da formalização dos empregos se mostra uma medida essencialmente feminista, pois tira as mulheres, que são maioria nas ocupações informais, de um local de extrema vulnerabilidade, especialmente em momentos como o da pandemia do Novo Coronavírus. Por último, a garantia da licença maternidade remunerada e a criação de licença paternidade em igual extensão permitem que se conciliem de forma mais solidária os trabalhos de produção e reprodução, auxiliando na percepção coletiva de que o cuidado não é, no fim das contas, apenas trabalho de mulher.


Referências:

[1] https://www.onumulheres.org.br/noticias/violencia-contra-as-mulheres-e-meninas-e-pandemia-invisivel-afirma-diretora-executiva-da-onu-mulheres/https://www.onumulheres.org.br/noticias/violencia-contra-as-mulheres-e-meninas-e-pandemia-invisivel-afirma-diretora-executiva-da-onu-mulheres/


[2] http://www.generonumero.media/pandemia-economia-cuidado-onu-mulheres-brasil/


[3] ONU MULHERES. PolicyBrief: O impacto do COVID-19 nas mulheres. 09 de abr. de 2020. Acesso em: 10 de jun. de 2020 https://www.unwomen.org/-/media/headquarters/attachments/sections/library/publications/2020/policy-brief-the-impact-of-covid-19-on-women-en.pdf?la=en&vs=1406


[4] CADERNOS DE FORMAÇÃO. As mulheres e o mercado de trabalho. Caderno 3. Campinas: IE. Cesit, 2017.


[5] https://elpais.com/elpais/2020/06/19/planeta_futuro/1592569446_197978.html


[6] http://www.onumulheres.org.br/noticias/trabalho-de-cuidados-oscila-entre-10-e-39-do-pib-de-paises/


[7] https://www.geledes.org.br/o-que-eles-chamam-de-amor-nos-chamamos-de-trabalho-nao-pago-diz-silvia-federici/#:~:text=todos%20os%20resultados-,O%20que%20eles%20chamam%20de%20amor%2C%20nós%20chamamos%20de,não%20pago%2C%20diz%20Silvia%20Federici&text=“Eles%20abriram%20as%20portas%20das,o%20casamento%20era%20a%20solução.


[8] ORGANIZAÇÃO PARA A COOPERAÇÃO E DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO (OCDE). Women at the core of the fight against COVID-19crisis. 2020. Disponível em: https://read.oecd-ilibrary.org/view/?ref=127_127000-awfnqj80me&title=Women-at-the-core-of-the-fight-against-COVID-19-crisis


[9] ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Gender equity in the health workforce: Analysis of 104 countries. 2019. Disponível em: ‘https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/311314/WHO-HIS-HWF-Gender-WP1-2019.1-eng.pdf



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